Notícias

Jovens e o coop: por que as novas gerações escolhem cooperar

O que os jovens querem? Inclusão, sustentabilidade e participação estão entre as aspirações mais comuns das novas gerações, que também buscam cooperação, ação efetiva contra a crise climática e consumo com propósito. O diagnóstico é da Organização das Nações Unidas (ONU), que elegeu o tema “Contextos diferentes, aspirações comuns” para o Dia Internacional da Juventude  2026, celebrado em 12 de agosto. 

A escolha mostra que a sociedade reconhece que os desafios e oportunidades enfrentados pelos jovens de hoje são semelhantes em várias partes do mundo. E as soluções também podem ser: o cooperativismo é um dos caminhos da juventude para construir relações mais solidárias e contribuir para um desenvolvimento sustentável.

“Os jovens estão em busca de organizações que demonstrem coerência entre discurso e prática e que sejam capazes de gerar impacto positivo real. E as cooperativas têm justamente na sua essência princípios e valores como colaboração, participação democrática e compromisso com o desenvolvimento das pessoas e das comunidades”, afirma Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB, entidade que representa as cooperativas brasileiras. 

Em todo o mundo, 3 milhões de cooperativas trabalham com propósito e sustentabilidade, atributos muito valorizados pela Geração Z – pessoas nascidas entre 1997 e 2012. Segundo pesquisa da  Archrival, na hora de escolher um produto, 54% dos jovens buscam marcas que os fazem sentir parte de uma comunidade. E 84% são mais propensos a comprar de organizações que consideram “legais”, ou seja, alinhadas a valores que consideram importantes, como consumo consciente e sustentabilidade ambiental e climática. 

Nas cooperativas, a juventude encontra esses e outros diferenciais, seja para consumir produtos, organizar a vida financeira ou ingressar. O movimento cooperativista está atento a essa transformação e desenvolve estratégias para atrair, envolver e fidelizar as novas gerações. Conheça alguns exemplos:

Conexão coop 

No Centro-Oeste do país, um programa criado em 2020 pela Cooperativa de Crédito e Investimento com Interação Solidária de Goiás (Cresol Goiás) já apresentou o cooperativismo a mais de 2 mil jovens. No Juventude Conectada, eles aprendem sobre os princípios e valores das cooperativas, educação financeira, empreendedorismo e protagonismo para atuar como agentes de transformação em suas comunidades.

juventude conectada 9fd2537b841814e1Com atividades 100% on-line e encontros ao vivo semanais, o programa propõe desafios práticos aos jovens, valoriza a inteligência coletiva, a integração entre participantes de diferentes regiões e interesses e combina conteúdo teórico com atividades autônomas acompanhadas por facilitadores.  Ao todo, são 110 horas de formação. 

“Um dos grandes diferenciais é a gamificação, estratégia que torna a jornada de aprendizagem mais dinâmica, participativa e atrativa, estimulando o engajamento, a colaboração e a interação entre os participantes. Mais do que capacitar, o programa busca gerar transformação. Um dos seus principais impactos é aproximar as novas gerações do modelo cooperativista, fortalecendo o sentimento de pertencimento e criando novas possibilidades de participação no movimento”,  explica a analista de Relacionamento da cooperativa, Dênia Stein

A semente coop plantada entre os jovens já tem dado frutos. Segundo Dênia, mais da metade dos participantes do programa se tornaram cooperados. “Esse indicador evidencia a capacidade do Juventude Conectada de ir além da disseminação de conhecimentos, promovendo uma aproximação efetiva e duradoura das novas gerações com o cooperativismo e fortalecendo seu protagonismo na construção do futuro do movimento cooperativista”. 

Dos 9,4 mil cooperados da Cresol Goiás, 1,4 mil têm entre 18 e 30 anos, cerca de 15%, percentual que a cooperativa de crédito pretende ampliar. “Engajar os jovens no movimento cooperativista é uma estratégia fundamental para garantir a continuidade, a renovação e a sustentabilidade do cooperativismo. A juventude representa não apenas o futuro do movimento, mas também uma força de transformação no presente, trazendo novas perspectivas, conhecimentos, comportamentos e formas de se relacionar com a sociedade”, afirma a analista.

Presente e futuro 

“Os jovens trazem energia, tecnologia e uma nova visão de negócio. Engajá-los é assegurar que os princípios do coop continuem vivos nas próximas gerações”. É com esse entusiasmo pelo tema que o diretor presidente da Coplacana, Marcos Farhat, fala sobre o Núcleo Jovem implementado há cinco anos pela maior cooperativa de cana do Brasil, que atualmente reúne mais de 14 mil cooperados nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná.

O programa é aberto a filhos, netos e sobrinhos de cooperados, com idade entre 16 e 35 anos. O foco são as gerações Y e Z que vão assumir as propriedades e, futuramente, a liderança da cooperativa. Desde 2021, o Núcleo Jovem já capacitou mais de 150 participantes, aproximando gerações, estimulando a sucessão familiar e formando novos líderes. 

Segundo Farhat, ao longo dos anos, a Coplacana viu jovens evoluindo em capacidade de gestão e servindo de exemplo para a formação de núcleos jovens em outras cooperativas. Além de criar como um canal direto entre a cooperativa e a juventude rural, o projeto quebra o tabu da sucessão familiar, capacita jovens lideranças que estão assumindo cargos de diretoria em associações e comissões e promove conexão direta com o tema inovação, por meio de projetos ligados a startups e tecnologia no campo.

O benefício é duplo: do lado da cooperativa, o quadro de associados é renovado e são formados futuros líderes; já na sucessão familiar, a iniciativa aproxima pais e filhos, profissionalizando a gestão da propriedade e reduzindo conflitos na hora da passagem de bastão. “Se o jovem de hoje não for estimulado a continuar o negócio dos pais e das instituições, o risco é muito grande. É preciso garantir a perenidade do cooperativismo e dos próprios cooperados. Sem jovem não tem futuro”, afirma Farhat.

O formato da capacitação atende a vários perfis de jovens: o núcleo tem encontros presenciais e on-line, visitas técnicas, missões, workshops e mentorias. “O jovem é protagonista: ele sugere temas, tira dúvidas e traz os dilemas da propriedade”, explica o diretor. 

O Núcleo Jovem também promove rodas de conversa, palestras com especialistas, cases de sucesso, visitas a propriedades modelo e empresas parceiras. Os conteúdos trabalhados nas atividades envolvem temas importantes como gestão rural, governança corporativa, sucessão, finanças, marketing, ESG, inovação, cooperativismo, comunicação e liderança.

Segundo ele, a iniciativa da coop voltada para a juventude impacta diretamente não só a Coplacana, mas o agronegócio no Brasil. “É grande a chance dos jovens capacitados voltarem para as propriedades, carregando inovação e tecnologia, e aplicando seus conhecimentos. Dentro da cooperativa, estamos formando um banco de talentos para o futuro conselho, comissões e até diretoria. É o jovem que vai tocar a Coplacana daqui a 10 ou 20 anos. No agro como um todo, isso significa mais competitividade, mais jovens no campo e menos êxodo rural. É investir em gente para garantir comida e renda no futuro”, destaca o diretor presidente da Coplacana. 

Trabalho em conjunto 

larissa zambiasi 39290237bb39efc3Engajar jovens no cooperativismo e preparar novas lideranças é uma tarefa tão importante para o movimento cooperativista brasileiro que o Sistema OCB criou um grupo de jovens para reforçar essa missão: o Comitê Geração C

Formado por 17 integrantes de todas as regiões do país, o colegiado promove o cooperativismo entre jovens de 18 a 35 anos com base em pilares como representação institucional, formação, capacitação e intercooperação. Umas das ferramentas é o apoio à criação de comitês e núcleos jovens em cooperativas, que conta com um Manual escrito pelos próprios integrantes. 

Outra conquista do comitê é a crescente representação institucional em eventos de jovens, compartilhando boas práticas que as cooperativas estão executando, além do Instagram oficial do comitê Geração C, que tem sido uma importante ferramenta para o compartilhamento das ações desenvolvidas em todo o Brasil.

Para a coordenadora do Comitê Geração C, Larissa Zambiasi, do Rio Grande do Sul, o engajamento das novas gerações é essencial para formar as futuras lideranças do movimento cooperativista. “Nesse espaço aprendemos a valorizar a trajetória e a história das cooperativas e dos líderes atuais, sem perder de vista os sete princípios do cooperativismo, reunindo conhecimento e contribuindo nas nossas cooperativas”.

Conteúdos Relacionados