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Clóvis de Barros Filho vê cooperativismo como caminho para o bem coletivo

O filósofo Clóvis de Barros Filho é um admirador do cooperativismo e afirma que esse modelo é o que mais se aproxima do ideal de uma sociedade ética, justa e solidária. “A ideia do cooperativismo é o resgate de uma virtude de convivência que foi progressivamente solapada pelos interesses dos que ganham com a individualização da vida”, afirma. 

captura de tela 2026 09 01 164806 cf0a15941009a376Professor, escritor e palestrante, Barros é conhecido por traduzir conceitos complexos de filosofia e ética de forma acessível. Em seu livro Xá-Ku-Nóis: sobre cooperação, confiança e mudança, escrito em parceria com o consultor de cooperativas Geraldo Trindade, ele mostra como o cooperativismo pode contribuir para melhorar a vida das pessoas e comunidades por meio da ação conjunta, soma de esforços, mudança de atitudes e parceria. 

Em entrevista ao SomosCoop durante a Semana de Competitividade – evento de capacitação das cooperativas brasileiras –, Barros falou sobre a capacidade do cooperativismo de transformar interesses individuais em objetivos comuns e o papel das cooperativas para o desenvolvimento e bem-estar coletivo.

 

SomosCoop: O senhor já escreveu um livro sobre cooperativismo, o Xá-ku-nóis. Por que esse modelo de negócio despertou sua atenção? O que te encanta nele?

Clóvis de Barros Filho: A própria ideia da cooperação é muito fascinante, em especial, em tempos de individualismo exacerbado, em que somos levados a acreditar numa certa incapacidade do humano em considerar o outro. Há uma orquestração para nos fazer acreditar que quando tratamos de humanos é cada um por si. E talvez isso seja do interesse daqueles que pretendem exercer algum tipo de poder enfraquecendo os processos de mobilização coletiva. Então, a própria ideia da cooperação, de que podemos colocar o coletivo acima das veleidades individuais, colocar a convivência acima da felicidade singular, tudo isso é fascinante, em especial porque o cooperativismo é o modo de organização sócio-profissional que mais se alinha ao entendimento contemporâneo de ética. Então, como professor de ética, sou particularmente encantado por esse modelo.

Como essa construção de uma cultura da cooperação está inserida na história da humanidade?

Os gregos entendiam que a nossa humanidade não se produz no singular. Ela se constrói na relação com os outros, no coletivo, como eles diziam, na pólis, na cidade. E também entendiam que a cidade justa é uma cidade onde cada um tem seu papel, em função da sua natureza. Com isso fica claro que viver numa cidade justa seria condição de uma vida feliz. Então, há um uma preocupação com a justiça da vida no coletivo como condição da felicidade individual. 

Essa valorização do coletivo mudou ao longo da história? 

Isso, em grande medida, foi sendo substituído por um discurso de felicidade estritamente ensimesmado, voltado para si mesmo, como se a presença dos demais do mundo não fosse uma variável relevante na equação da vida boa. E naturalmente, isso não combina com o que achavam os gregos. Então, a própria ideia do cooperativismo é um um resgate de uma virtude de convivência que foi progressivamente solapada pelos interesses daqueles que ganham com esta individualização da vida.

Como o cooperativismo se alinha aos seus estudos de ética?

Bem, a ética é um campo do conhecimento que tem algumas algumas premissas, e uma das mais fundamentais é a primazia da harmonia do coletivo sobre interesses individuais que possam comprometê-la. E o modelo cooperativista facilita esse entendimento, porque deixa claro que o valor da ação individual só se materializa quando inserido em um contexto onde outros agem também. E essa horizontalidade facilita muito o entendimento de que a reflexão sobre o jeito justo de conviver depende da participação de todos. A ética cuida da convivência entre todos. 

Como isso se dá na prática no cooperativismo?

Num modelo convencional de organização profissional, mais vertical, é muito comum ouvirmos coisas do tipo: 'vamos fazer um seminário de ética para nível gerencial e de diretoria, etc'. Ora, isso é um contrassenso, porque justamente quando se fala em ética, é preciso borrar as hierarquias funcionais. Porque se você mantiver a estrutura de poder interno também nas questões éticas, fica evidente que os que estão em cima não vão se dar ao trabalho de respeitar nada quando o respeito à ética lhes for desconfortável. Quando falamos em ética, desaparece a hierarquia. A ética cuida de todos no mesmo pé de igualdade. O respeito ao coletivo é da parte de todos. E o modelo cooperativista está mais próximo disso do que qualquer outro. 

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