Trabalhar, ter renda própria e conquistar a autonomia são dimensões importantes da inclusão das pessoas com deficiência (PcD). Para muitos brasileiros, o cooperativismo tem sido um caminho para alcançar esses objetivos, com oportunidades que valorizam seu potencial e abrem portas não só para o mercado de trabalho, mas também para a participação ativa na sociedade. Essa atuação ganha ainda mais destaque no Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro.
“Em várias partes do Brasil, as cooperativas desenvolvem iniciativas voltadas à autonomia, dignidade e inclusão de pessoas com deficiência em seu quadro de colaboradores, assumindo um importante papel de transformação social. Além de combater o preconceito e o capacitismo, essas ações fortalecem a independência, pertencimento e perspectiva de futuro”, destaca Fabíola Nader Motta, superintendente do Sistema OCB, entidade representativa do cooperativismo brasileiro.
Mudança cultural
Uma delas é a Cooperativa Agrícola Sul Mato-Grossense (Copasul), de Naviraí (MS), que começou a incluir pessoas com deficiência há 35 anos, em cumprimento ao Artigo 93 da Lei nº 8.213/1991, a Lei de Cotas, que estabelece a reserva legal de vagas para pessoas com deficiência em empresas com 100 ou mais empregados. Ao longo do tempo, porém, a iniciativa ganhou um significado muito maior, tornando-se parte de uma atuação permanente de valorização desses profissionais.
A obrigação legal deu origem a uma mudança cultural e a Copasul passou a criar oportunidades, preparar seus ambientes, capacitar suas equipes e desenvolver programas de aprendizagem para acolher as pessoas com deficiência em todos os aspectos. Ao todo, 56 integram o quadro funcional da cooperativa, além de 19 participantes do programa de aprendizagem, totalizando 75 colaboradores diretamente envolvidos nas iniciativas de inclusão.
“A Copasul não apenas emprega pessoas com deficiência, mas também abre suas portas para que mais pessoas conheçam a coop, seus negócios, sua cultura e as diversas possibilidades de inserção no mercado de trabalho. Uma das ferramentas para isso é o projeto Portas Abertas, iniciado em 2023, que apresenta as possibilidades de trabalho na cooperativa a estudantes de instituições de educação especializada da região e seus familiares”, explica a gestora de Recursos Humanos da Copasul, Natielli Sayuri.
Segundo ela, para muitas famílias de pessoas com deficiência, conhecer o ambiente de trabalho e conversar com pessoas que já passaram por esse processo ajuda a diminuir inseguranças e a mudar perspectivas. Já para os estudantes, é uma oportunidade de começar a enxergar o trabalho como uma possibilidade concreta para o futuro. “Por isso, nosso objetivo não é apenas aumentar o número de contratações, mas criar trajetórias profissionais sustentáveis, nas quais a pessoa com deficiência possa crescer e construir carreira dentro da cooperativa”, afirma a gestora.
Outra iniciativa de inclusão da Copasul é o Programa Jovem Aprendiz PcD, em que os participantes recebem capacitação e desenvolvem segurança e autonomia em sua primeira experiência no mercado de trabalho. Atualmente, a Copasul tem 19 pessoas com deficiência como aprendizes. “O programa oferece formação, acompanhamento e experiência prática. Dessa forma, o jovem consegue descobrir suas habilidades, compreender melhor o mundo do trabalho e também ser reconhecido pela própria organização”, destaca Natielli.
De acordo com a gestora, a inclusão de pessoas com deficiência transforma o clima organizacional. Líderes e equipes passam a conviver com a diversidade, aprendem novas formas de comunicação e percebem que muitas limitações que imaginavam existir simplesmente não se confirmam quando são oferecidas as condições adequadas.
“Entendemos que não basta contratar uma pessoa com deficiência; é necessário preparar a organização para recebê-la e oferecer condições para que ela se desenvolva. A nossa compreensão é de que acessibilidade não se resume a uma adaptação física. Ela envolve comunicação, informação, tecnologia, processos, comportamento e, principalmente, atitude”, explica a gestora.
Fora dos muros da cooperativa, a Copasul também atua para gerar uma rede de inclusão. Uma das iniciativas capacita o comércio local para um atendimento mais acessível e acolhedor às pessoas com deficiência e neurodivergentes.
“Quando empresas e profissionais estão preparados para receber pessoas com deficiência, novas possibilidades de participação são criadas. A pessoa passa a circular com mais segurança, consumir, trabalhar e ocupar diferentes espaços da comunidade. A inclusão deixa de ser uma ação isolada e passa a gerar um efeito multiplicador, criando mais oportunidades, autonomia, conhecimento e uma comunidade cada vez mais preparada para reconhecer e valorizar a diversidade”, finalizou.
Cooperação pela inclusão
No Paraná, a Unimed Londrina também vem fazendo a diferença com o Projeto Unir, uma iniciativa voltada à inclusão profissional de pessoas com deficiência física, intelectual, auditiva e visual no quadro de colaboradores. O projeto nasceu em 2017, em parceria com instituições especializadas da cidade, e estruturou um processo seletivo diferenciado, que considera as características, habilidades e potencialidades de cada candidato.
A preparação também envolve as equipes que receberão os novos colaboradores. “Foram realizados cursos, orientações e ações de sensibilização para que os profissionais e as lideranças estivessem preparados para acolher e trabalhar com os novos integrantes. Além disso, estabelecemos um acompanhamento mensal, envolvendo as áreas responsáveis e, quando necessário, as instituições parceiras e os familiares”, explica Fabianne Piojetti, gerente de Sustentabilidade da Unimed Londrina.
Após a seleção, os candidatos passam por um período de adaptação para conhecer o ambiente, as atividades e a rotina da cooperativa. Já contratados, recebem acompanhamento no dia a dia e desempenham funções compatíveis com seu perfil, com suporte das equipes.
“O objetivo é favorecer o aprendizado, o desenvolvimento da autonomia, a convivência e a plena integração ao ambiente de trabalho. Ao longo desses anos, o Projeto Unir já proporcionou oportunidades e contribuiu para o desenvolvimento de diversos profissionais, sendo que alguns participaram de processos de recrutamento interno e passaram a atuar em outras áreas e gestões”, conta a gestora.
Em todo o território nacional, com suas 336 cooperativas, a Unimed do Brasil promove diversas ações de conscientização e sensibilização para a inclusão de pessoas com deficiência. Os dados mostram que, entre estes profissionais, a trajetória média na organização é de 4 anos e 39% construíram sua evolução profissional dentro do sistema cooperativista.
“O cooperativismo faz diferença nesse processo porque é um modelo baseado em solidariedade, igualdade e vínculo com a comunidade, o que nos permite enxergar a pessoa com deficiência como agente econômico e intelectual ativo, que contribui para as organizações e para a sociedade ao ampliar a diversidade de experiências, perspectivas e conhecimentos”, destaca Omar Abujamra, presidente da Unimed do Brasil.
Entre as iniciativas nacionais estão a campanha "Eu Ajudo na Lata", que reúne diversas Unimeds na arrecadação de lacres de latinhas de alumínio para reverter o valor na compra de cadeiras de rodas, e o Projeto ExtensIA, da Faculdade Unimed, que desenvolveu um sistema multiagente de inteligência artificial para garantir que uma professora com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) continuasse lecionando com plena autonomia.
Em outra iniciativa inspiradora de inclusão, a Unimed Catanduva (SP) garantiu que pais surdos vivenciassem plenamente o nascimento da filha, com a participação de uma intérprete de Libras no parto.
“Todos têm os mesmos direitos e deveres, e cabe a toda a sociedade garantir que a deficiência não seja uma barreira para exercê-los. Isso significa ir além do cumprimento da Lei de Cotas e criar condições de participação, com acessibilidade, oportunidades e respeito às singularidades, a fim de garantir que elas possam assumir desafios, desenvolver suas competências e construir sua trajetória profissional dentro das cooperativas”, destaca Abujamra.
Fábrica da Inclusão
Em Cariacica/ES, a Fábrica da Inclusão e Loja Social emprega pessoas com deficiência, contribuindo para o fortalecimento de competências técnicas, sociais e comportamentais. O espaço foi erguido com recursos do Fundo Social da Sicredi Serrana, em parceria com a Associação Cariacica Down.
Inaugurada em agosto, a Fábrica reúne 26 participantes, que conseguem vivenciar na prática o atendimento ao público, organização, comunicação, comercialização, relacionamento interpessoal e trabalho em equipe. O objetivo é estimular a inclusão social e a autonomia de pessoas com deficiência, aproximando os participantes do cotidiano profissional e ampliando as possibilidades de inserção no mercado de trabalho.
Inclusão na lei e na práticaAs iniciativas do cooperativismo dialogam com a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência, que garante direitos e promove a cidadania. Principal marco legal do país para a proteção dos direitos de milhões de brasileiros com deficiência, a lei entrou em vigor em 2016 para combater o preconceito e garantir acessibilidade, autonomia, igualdade de oportunidades, eliminação de barreiras e inclusão no mundo do trabalho. Em 10 anos de implementação, a LBI tem contribuído para uma mudança cultural na forma como a deficiência e as pessoas com deficiência são compreendidas na sociedade brasileira. A deficiência deixa de ser vista apenas como uma questão de saúde individual e passa a ser entendida também como resultado da interação entre as pessoas e o ambiente em que vivem. |
Saiba mais: acesse o Guia de Implantação de Estratégias em Inclusão, Diversidade e Equidade e veja como o cooperativismo promove essa agenda. O guia é um material digital acessível a pessoas com deficiência visual e baixa visão, que pode ser utilizado em plataformas de leitura de tela como o NVDA (NonVisual Desktop Access). A publicação foi elaborada com alto contraste de cores, linguagem inclusiva e autodescrição das imagens (fotos).