Dedicação, afeto, amor, zelo. Para muita gente, essas palavras lembram o significado de mãe, mas atributos associados à criação não devem se concentrar em apenas uma pessoa. Como lembra um conhecido provérbio africano – “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” –, o cuidado com os filhos é, na essência, um trabalho coletivo e cooperativo.
Uma rede de apoio coletiva é importante para a saúde mental da mãe, para o desenvolvimento da criança e para a família, de forma geral. Não somente parentes diretos, mas amigos, vizinhos, familiares e educadores podem se engajar na tarefa de preparar uma criança para o mundo.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que o desenvolvimento na primeira infância depende de um ambiente de cuidado responsivo, proteção, vínculo estável e presença de cuidadores que consigam oferecer atenção e segurança. Juntos, esses fatores criam condições concretas para que a criança se desenvolva emocional, cognitiva e socialmente em um ambiente mais estável.
Segundo a especialista Bianca Bonassi, a cooperação no cuidado beneficia toda a família, porque o apoio também melhora a qualidade dos laços. “Quando o cuidado é partilhado, a mãe não ocupa sozinha o lugar do sacrifício permanente, o pai ou outros responsáveis se vinculam mais de perto à vida cotidiana da criança, e a convivência tende a se organizar de forma menos desigual”, compara a vice-presidente do conselho deliberativo do Instituto Promundo, organização não governamental que promove a corresponsabilidade no cuidado e a paternidade ativa para reduzir desigualdades de gênero.
Mães em cooperação
No Espírito Santo, uma cooperativa de saúde tem cooperado com as mães desde a gestação. No mês das mães, a Unimed Sul Capixaba promoveu a roda de conversa “Conexão Materna”, em que as gestantes puderam conversar com profissionais de saúde sobre o início do maternar e todas as transformações físicas e emocionais desse período.
“Foi um momento de diálogo, acolhimento e muito aprendizado com um grupo de profissionais especializados em gestantes, cada um na sua área. Discutimos temas relacionados à gestação na visão de especialistas como fisioterapeuta, psicólogo, médico obstetra, massoterapeuta e enfermeira. Também contamos com orientações de doulas, enfermeira consultora em amamentação e em furinho humanizado de orelha”, detalhou a gestora de Promoção de Saúde da Unimed Sul Capixaba, Adriana Sarzedas.
Com 36 anos de atuação no estado, a cooperativa reúne 476 médicos cooperados e promove ações de educação e informação em saúde de forma permanente para a comunidade. Para as mães e pais, Unimed Sul Capixaba possui um Hospital Materno-Infantil de referência e também apoia as famílias na preparação para receber os bebês em suas rotinas.
Com atendimento humanizado e acolhimento, a coop também coopera com o maternar com cursos pré-parto e orientações sobre lactância. Além disso, as colaboradoras da Unimed Sul Capixaba contam desde 2024 com uma sala de amamentação, um ambiente adequado para dar continuidade ao aleitamento no período de retorno da licença-maternidade.
Iniciativas como essas tornam o trabalho de maternar mais cooperativo e compartilhado, com rede de apoio, divisão de tarefas, sentimentos e experiências, segundo a cooperada da Unimed Sul Capixaba Dayana Debacker. “Estou gestante no quarto mês, é o meu primeiro filho e foi muito especial participar dessa roda de conversa. O meu Dia das Mães foi bem produtivo, pude aproveitar bastante. Tirei muitas dúvidas com a equipe, principalmente a respeito da amamentação”.
Desafios e perspectivas
Apesar do reconhecimento dos benefícios do cuidado compartilhado, estatísticas da Organização do Trabalho (OIT) mostram que muitas mulheres estão sozinhas ou pouco amparadas nessa missão, sobrecarregadas por tarefas domésticas e de cuidado, classificadas como atividades não remuneradas. De acordo com a entidade, as brasileiras dedicam quase dez horas a mais por semana que os homens a trabalhos não remunerados. Em nível mundial, as mulheres realizam 76,2% de todas essas tarefas no mundo, dedicando 3,2 vezes mais tempo do que os homens.
Além disso, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tem 11 milhões de mães solo, que cuidam dos filhos sem apoio de um cônjuge, além de trabalhar fora e gerenciar a casa. Segundo Bianca Bonassi, para reverter essa lógica baseada em sobrecarga e desigualdade, é preciso reconhecer o cuidado como parte da vida coletiva e não uma tarefa exclusiva das mães.
“Assim como no cooperativismo, cooperar na maternidade não é apenas dividir resultados, é reconhecer interdependência. E o cuidado é talvez a expressão mais concreta dessa interdependência. Uma sociedade que naturaliza que uma mulher sustente quase sozinha a reprodução da vida está falhando em algo muito básico”, afirma.