Você já parou para pensar no caminho que os produtos percorrem até chegar à sua casa e, principalmente, para onde vão depois? No modelo tradicional de consumo, a lógica é linear: extrair recursos da natureza, produzir, consumir e descartar. No entanto, o lixo que geramos não desaparece. É preciso repensar esse modelo, e a resposta para isso tem nome e sobrenome: economia circular.
Esse conceito parte do princípio de que os materiais devem ser reaproveitados ao máximo, mantendo-se no ciclo produtivo. Em vez de esgotar o meio ambiente, o foco é a continuidade. Para o consumidor, essa mudança de mentalidade é guiada por atitudes diárias simples, conhecidas como os 3Rs: Reduzir (comprar apenas o necessário), Reutilizar (dar novas utilidades aos objetos) e Reciclar (garantir que o que seria lixo volte a ser matéria-prima).
Quando essas práticas se unem ao cooperativismo, os impactos ambientais, econômicos e sociais ganham outra dimensão. Alinhadas ao conceito de economia circular, cooperativas de reciclagem, produção sustentável e reaproveitamento de materiais têm ampliado oportunidades de geração de renda, inclusão produtiva e desenvolvimento local em diferentes regiões do país.
Responsabilidade compartilhada
Com o avanço do consumo consciente, da conscientização sobre mudanças climáticas e do papel do do setor produtivo para a sustentabilidade ambiental, a economia circular deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade estrutural. Neste cenário, o cooperativismo tem se posicionado como protagonista.
“As cooperativas de reciclagem desempenham um papel fundamental na construção de uma economia circular, ao garantir que materiais recicláveis sejam reaproveitados de forma eficiente e sustentável. Além de contribuírem para a redução do desperdício e dos impactos ambientais, elas geram trabalho digno e renda para milhares de catadores e catadoras, promovendo inclusão social e produtiva para pessoas em situação de vulnerabilidade”, destaca a presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella.
De acordo com o AnuárioCoop 2025, as cooperativas e associações de catadores foram responsáveis pela coleta e destinação de 1,7 milhão de toneladas de resíduos para reaproveitamento, com atuação em mais de 1,7 mil municípios brasileiros. A reciclagem desses materiais evitou a emissão de 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera.
Desafio nas prateleiras
Mas a economia circular começa muito antes do descarte: ela nasce no planejamento da indústria e se reflete nas escolhas do consumidor na hora de fazer as compras. Cooperativas agroindustriais têm assumido a linha de frente dessa transformação, buscando soluções que facilitem a prática diária dos 3Rs.
Na Aurora Coop, a sustentabilidade está integrada à linha de produção. Hoje, 79% das embalagens da cooperativa catarinense vêm de fontes renováveis. “Evitamos o uso de materiais desnecessários e investimos na otimização de insumos, como papéis, plásticos e resinas, buscando soluções recicláveis e, sempre que possível, provenientes de fontes renováveis. Essas medidas impactam positivamente a redução de resíduos, o uso de recursos naturais e os custos operacionais, além de ampliar a eficiência da armazenagem e do transporte”, explica Mateus Cescon Potrich, analista ambiental da cooperativa.
Em setores que produzem itens sensíveis, como lácteos e carnes, o uso de materiais reciclados enfrenta barreiras técnicas e legais, já que a legislação não permite o contato direto do plástico reciclado com o alimento. Para compensar essa restrição, a cooperativa inovou e passou a priorizar o material reciclado em filmes stretch e termocontráteis que envolvem as caixas de transporte — 60% do papelão utilizado pela marca já vem da reciclagem.
“A embalagem exerce um papel estratégico na proteção do alimento. Estruturas adequadamente projetadas são fundamentais para garantir o shelf life [vida útil] dos produtos, contribuindo de forma significativa para a redução do desperdício”, explica a coordenadora de P&D da Aurora Coop, Daniele Becchi. Para orientar o consumidor a fazer escolhas conscientes, as embalagens da AuroraCoop trazem os símbolos de reciclagem estampados.
A economia circular só funciona por meio da colaboração. Em parceria com o Instituto Recicleiros, a Aurora Coop opera a coleta seletiva em 15 cidades em várias partes do país. A iniciativa já resultou em 17,5 mil toneladas de materiais reciclados, atendendo quase 1 milhão de pessoas e gerando 310 empregos diretos. Um dos projetos implantou um sistema de logística reversa em São Gabriel do Oeste (MS) e recuperou quase 1,4 mil toneladas de resíduos – o equivalente a 81% de todas as embalagens comercializadas pela marca no estado.
Força do coletivo
A união entre cooperativismo e economia circular também está transformando o território amazônico. O programa Benevides Recicla é um exemplo de como a colaboração intersetorial amplifica resultados. A iniciativa une a Cooperativa Reciclaben, a Natura, a Prefeitura de Benevides (PA) e a ONG Espaço Urbano.
Em dois anos, o programa coletou mais de 270 toneladas de resíduos recicláveis. Até março de 2026, já contabilizava mais 43 toneladas destinadas corretamente, impactando cerca de 90 ecossistemas locais, entre escolas e espaços comunitários.
“Iniciativas como o Benevides Recicla mostram que a economia circular acontece de forma mais efetiva quando diferentes atores trabalham juntos. O programa conecta educação ambiental, inclusão produtiva e fortalecimento da cadeia de reciclagem local, ao mesmo tempo em que contribui para ampliar a circularidade dos materiais recicláveis”, explica o gerente sênior de Cadeias Sustentáveis da Natura, Sergio Talocchi.
O projeto é baseado na atuação integrada de diferentes atores. A gestão municipal coordena a política pública e as ações intersetoriais; a ONG Espaço Urbano contribui com metodologia e ações de educação ambiental; a Cooperativa Reciclaben atua na triagem e processamento dos resíduos, fortalecendo a geração de renda local; e a Natura apoia o ecossistema por meio de investimentos, capacitação e direcionamento de resíduos provenientes do Ecoparque da companhia em Benevides.
Além disso, o Benevides Recicla integra o Programa Elos, com a integração de 53 cooperativas parceiras, beneficiando cerca de três mil cooperados. “Apoiar soluções construídas em parceria com cooperativas, poder público e sociedade civil também faz parte do compromisso de gerar impacto positivo nos territórios onde atuamos”, afirma Talocchi.
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